Terça-feira, 27 de Abril de 2004

Penso Rápido I - TIC-TAC-TIC-TAC

Hoje deixo-vos com dois textos da autoria de um colega da Escola (Paulo Rui), publicados na Edição N.º 1 do Palavras à Solta (Jornal da Escola Secundária da Mealhada). O autor intitulou os textos de "Penso Rápido".


TIC, TAC, TIC, TAC, TIC, TAC… Pum! Explodiu, súbita, a retórica das T.I.Cs. Não sabem o que é!? Estão fartos de acrónimos ininteligíveis, tão grandes que até têm perspectiva!? Acham que nas escolas e no ministério da educação se fala um dialecto tribal!? Em verdade vos digo que não há visão salvífica da educação em Portugal que não as contemple, não há demagogo/pedagogo que não faça a sua apologia, não há discurso redentor de ministro que não fale delas, não há lei de bases em que não seja o mote, não há projecto educativo que não glose o mote. Em França, o acrónimo é mais extenso – N.T.I.C (novas tecnologias da informação e da comunicação. Hélas! Cheira-me a copianço!), e suscitou as reacções habituais: a crendice beata, também habitual, de quem julga ter encontrado o antídoto para a ignorância generalizada dos alunos e para decénios de orientações educativas erradas; o cepticismo prudente, mais pontual (como é sabido, o bom senso, depois do dinheiro, é a coisa mais injustamente distribuída), de quem compreende o poder encantatório das T.I.Cs mas, previdentemente, desconfia da omnipotência das suas virtudes pedagógicas. Jean-Marc Lévy-Leblond, físico e epistemólogo francês, homem avisado, muito distante do intelectual pronto-a-pensar, considera que o desafio das T.I.C’s nas escolas não é tanto o da formação técnica (como fazer?), mas sim o domínio dos seus usos sociais (para quê fazer?). Assim, por exemplo, explorar a Internet na aula seria uma excelente oportunidade para a desmistificar, mostrando que nela não se encontram as maravilhas anunciadas e as soluções dos problemas de acesso ao trabalho e à cultura. Pois é! Muitas vezes o crédulo é um céptico mal informado. O discurso pedagogicamente correcto (em pedagogês, naturalmente) sobre as T.I.Cs seguirá dentro de momentos. A burocratização (“procedimentos administrativos” no dialecto tribal escolar, mas jogar aos eufemismos delico-doces não vale) crescente do quotidiano das escolas desvirtuou a natureza e função do director de turma. Ao modelo “tutorial” da direcção de turma sucede agora, inescapável, o modelo “manga-de-alpaca”. O director de turma deixou de ter tempo para partilhar os percursos escolares individuais dos alunos e transformou-se no zeloso apontador de ausências e no diligente expedidor de cartas e postais para os encarregados de educação, dia após dia, semana após semana (a recente legislação sobre faltas transformou o director de turma numa espécie de relator de processos Kafkianos, o Big Brother da assiduidade). As tarefas do director de turma assumiram dimensões risíveis (vá lá, sejam sinceros, digam a verdade!). A imposição, tacitamente assumida pelas escolas, que impõe aos D.T’s a obrigatoriedade de realização de tarefas puramente administrativas (a realização de matrículas, por exemplo, é um acto puramente administrativo, sem implicações pedagógicas, embora o aconselhamento e orientação pedagógica não o sejam) certifica esta convicção e não permite antever optimismo (embora, convenhamos, seja vagamente divertida a visão dos D.T’s, com banca improvisada, cola e tesoura em riste, a enfrentarem pais e alunos enfastiados. Plastificam-se cartões).


MANGA-DE-ALPACA – “Funcionário administrativo que usa processos antiquados. Expressão derivada das mangas postiças, dos punhos um pouco acima dos cotovelos que outrora usavam os escriturários para poupar o fato.” (Dicionário de Expressões populares Portuguesas; Guilherme Augusto Simões.)


publicado por cfrego às 19:43
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